domingo, 27 de fevereiro de 2011

Ponto.

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A caneta sangrava calma sobre a folha em branco; ia manchando-na de preto, anoitecendo-na pouco a pouco - uma metáfora de como as palavras vão lentas escurecendo as idéias. E eu ali, hesitando poucas vezes, exercia meu ofício. Como quem faz uma obrigação - a testa franzida, a expressão compenetrada -, mantinha-me imóvel, sentado, escrevendo mesmo sem conseguir conter a inquietação do corpo. Ia forçando em mim o ato, a tarefa; ia digerindo forçosamente o trabalho, o autor; ia escrevendo sem quando e sem lugar, guiado pelo balanço dos sons da cidade, do mar próximo, da baía agitada em que me encontrava; guiado por todos os santos sem nome que não me atendiam as preces.

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