sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Fábula sobre homens e lobos.

Noite. Puro breu. Os grilos cri cri cri, os sapos glub glub glub. Meio de mato, nada de cidade perto. Só a luz do carro estacionado. Puro silêncio não fosse um soluço, um choro, um grito. "Por favor, não... não"... alguém suplica. Quem? Não se sabe. É voz de ser humano, mas sem rosto por conta da escuridão. Além dos gritos, ouvimos passos - chap chap chap (imagine aí, passos sobre folhagens secas...). Clap! Um grito. Clap! Outro grito. Daí os diafragma dos zói vão se abrindo, e daí vamo conseguindo distinguir os vultos. Alguém amarrado, alguém de pé - na mão deste vemos uma peixeira, um facão, sei lá... parece que pinga sangue. Olhamos o outro, faltam-lhe alguns dedos, uma mão, uma orelha. "Ele merece", fala alto o pensamento de quem defere os golpes. Ele merece. E continua a agir a seu modo - aquele argumento o valida. "Ele me deu esse direito...", ainda grita o pensar. Digo pensar, mas os atos de lobo da criatura me parece ter devorado qualquer resquício de humanidade que sua silhueta denuncia. Não, não, ele não pensa. Só age. Talvez o outro tenha tomado uma atitude de lobo previamente, atitude que levara o outro outro a tomar aquela atitude de lobo que por ora presencio. Só observo - mas volta e meia as palmas das mãos me tapam os olhos. Clap, clap: o facão desmembra o alguém. Clap, clap, clap: agora são palmas. Olho ao redor, milhares de pessoas também só observam - mas a maioria num frenesi, nada de palmas nos olhos, o sangue jorrando, os membros voando, pra eles, são arte pura. Clap, clap, clap: mais palmas. "Fura os olhos!", "Capa o pau!", "Pinga oléo quente no..."... agora gritam! Gritam muito. Participam daquele espetáculo como meninas no show dos Hermanos - como se pedissem música num boteco. E me parece que o capataz obedece os pedidos: fura, capa, pinga... Eu não consigo mais assistir, fecho os olhos - lágrimas caem no beat do sangue que jorra das veias daquele, daquele lá, menos homem do que um pedaço de nada, restos de carnes e ossos. "Vê! Tão chorando por esse filho da puta!"... "Mas ele não chorou assim quando matou, robou.... seu babaca!". Só ouço. Com o resto do corpo desmembrado, ensaguentado, mais que morto, os brados, a euforia se volta contra mim... "Tá achando ruim, filho da puta?!", "Pega ele!"... Mas eu ainda penso, e o pensar me justifica: "não choro pela morte de um assassino, choro por me sentir só"! E só, altamente soberbo e egocêntrico, só eu me vejo humano. Mais gritos: "E nós somos o quê, seu viadinho?". Meus olhos secam, e correm o ambiente, e olham ao redor, atentamente, calmamente, e tristemente... eu só vejo lobos.

Livera.

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