Fábula sobre homens e lobos.
Noite.
Puro breu. Os grilos cri cri cri, os sapos glub glub glub. Meio de
mato, nada de cidade perto. Só a luz do carro estacionado. Puro silêncio
não fosse um soluço, um choro, um grito. "Por favor, não... não"...
alguém suplica. Quem? Não se sabe. É voz de ser humano, mas sem rosto
por conta da escuridão. Além dos gritos, ouvimos passos - chap chap chap
(imagine aí, passos sobre folhagens secas...). Clap! Um grito. Clap!
Outro grito. Daí os diafragma dos zói vão se abrindo, e daí vamo
conseguindo distinguir os vultos. Alguém amarrado, alguém de pé - na mão
deste vemos uma peixeira, um facão, sei lá... parece que pinga sangue.
Olhamos o outro, faltam-lhe alguns dedos, uma mão, uma orelha. "Ele
merece", fala alto o pensamento de quem defere os golpes. Ele merece. E
continua a agir a seu modo - aquele argumento o valida. "Ele me deu esse direito...",
ainda grita o pensar. Digo pensar, mas os atos de lobo da criatura me
parece ter devorado qualquer resquício de humanidade que sua silhueta
denuncia. Não, não, ele não pensa. Só age. Talvez o outro tenha tomado
uma atitude de lobo previamente, atitude que levara o outro outro a
tomar aquela atitude de lobo que por ora presencio. Só observo - mas
volta e meia as palmas das mãos me tapam os olhos. Clap, clap: o facão
desmembra o alguém. Clap, clap, clap: agora são palmas. Olho ao redor,
milhares de pessoas também só observam - mas a maioria num frenesi, nada
de palmas nos olhos, o sangue jorrando, os membros voando, pra eles,
são arte pura. Clap, clap, clap: mais palmas. "Fura os olhos!", "Capa o
pau!", "Pinga oléo quente no..."... agora gritam! Gritam muito.
Participam daquele espetáculo como meninas no show dos Hermanos - como
se pedissem música num boteco. E me parece que o capataz obedece os
pedidos: fura, capa, pinga... Eu não consigo mais assistir, fecho os
olhos - lágrimas caem no beat do sangue que jorra das veias daquele,
daquele lá, menos homem do que um pedaço de nada, restos de carnes e
ossos. "Vê! Tão chorando por esse filho da puta!"... "Mas ele não chorou
assim quando matou, robou.... seu babaca!". Só ouço. Com o resto do
corpo desmembrado, ensaguentado, mais que morto, os brados, a euforia se
volta contra mim... "Tá achando ruim, filho da puta?!", "Pega ele!"...
Mas eu ainda penso, e o pensar me justifica: "não choro pela morte de um
assassino, choro por me sentir só"! E só, altamente soberbo e
egocêntrico, só eu me vejo humano. Mais gritos: "E nós somos o quê, seu
viadinho?". Meus olhos secam, e correm o ambiente, e olham ao redor,
atentamente, calmamente, e tristemente... eu só vejo lobos.
Livera.
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