"Salvador 2014: quem tem limite é município!":
diz a faixa disposta na sacada do primeiro andar de um edifício no Rio Vermelho; na janela ao lado, um cartaz anuncia: "aluga-se por temporada". A rua apinhada de gente, táxis, cachorros, lixo, latas de cerveja; os sotaques, os trejeitos, os olhares afirmam: "não sou daqui". A soteropolitanidade, a baianidade nagô é ofertada nos jornais, em pacotes turísticos. "Tal camarote custa 1000 conto o dia, tal bloco, 800", ouço as vozes. "O bom é que tem gente até pra limpar sua bunda no camarote; tu fica lá parado, o copo não fica vazio, a barriga sempre cheia", dizem ali. "Hoje vou pra sicrano camarote; o fulano só tem gente zona norte", ouço de acolá. De pé até o circuito - pé, meu automóvel -, a gente anda um bocado entre um bando de carro parado - tem gente que tem medo de andar. Carro estacionado pra tudo o que é lado, a multa comendo solta. Táxi, artigo de luxo. "Paguei 70 conto pra andar 2km!" - achei ofensivo - "mas tava chovendo, pagava até 100!" - quem pode pode. Na entrada do circuito, um rapaz urina num muro. "Agora sim, tu virou baiano!", sentencia uma das moças que o acompanhavam. Já a moça que vende cerveja, dorme ao lado do isopor; a cara cansada, o corpo suado, é a criança, provalmente sua filha, que cuida dos negócios. "Olha lá, Skol a 1 real!", se surpreende o rapaz. A moça acorda num susto, mete a mão no gelo do isopor e faz emergir uma latinha. "Tá quente, mas pelo menos é Skol!", algum se consola. No circuito só se encontra Schin ou Itaipava ("Um absurdo!"). Assunto comentado em toda cidade, a impossibilidade de escolher a cerveja que se queria tomar no carnaval se tornou logo no mais saliente exemplo de antidemocracia - mas isso pouco importava ao catador de latinha, sujo de lama, que num saco de linho ia colocando as latas que catava. Dava pra ver um esboço de sorriso quando aquele encontrava um último gole esnobado por outrem; sorvia o líquido já quente num torpor sedento como que para lhe anestesiar a labuta. Noutro ponto, homens altos, fortes, de preto, escoltam pessoas brancas. Deu num jornal que teve gente dos camarotes que pagou mais de 2 mil conto pra ter segurança particular. O comboio de escolta e escoltados vai de um lado pro outro: do bloco pro camarote, do camarote pro bloco, do bloco pruma van, da van pro camarote, de camarate pra camarote. Deve ser gente importante. Pisco os olhos, passa ao lado, como um tufão, um pequeno jovem preto, maltrapilho; a correria faz abrir um vão no mar de gente que vai atrás do trio pipoca; uma fileira de policiais fareja o furdunço, parecia já perseguir o cabra, o alcança, o joga no chão - o cacetete come no centro. Ouço aplausos, gritos; "toma, filho da puta!". Atento à segurança dos outros, descuido do bolso e um pivete qualquer me leva uma qualquer coisa. Era só uma garrafinha daquelas térmicas com um resto de whisky que eu tinha levado pra não gastar dinheiro ou me perder na antidemocracia da cerveja. Já tava ligado no ocorrido, fiquei na paz. Garanti a embriaguez de alguém. E eu mesmo já estava embriagado. Olhando ao redor, percebo que se embriagar é algo muito importante na folia. Se não por bebida ou outras drogas, embriaga-se pelo som ou pela caça; tem gente que se embriaga por osmose, e senti que o circuito tava todo embriagado. Filas quilométricas nos poucos banheiros químicos dispostos nas ruas; a fila das mulheres é sempre maior. O homem passa pela fila feminina, se sente logo na incumbência da caça: puxa as garotas pelas mãos, passa-lhe as mãos nos cabelos, tenta lhe furtar um beijo, cheira-lhe o cangote, enche-lhe o saco. Vou olhando aquilo e, me inflando de irracionalidade, me afirmo: "Só espero que não mexam com a minha!". Sim, a mulher que me acompanha é "minha" - como propriedade privada, objeto que comprei no instante em que a cativei a ponto de ela me dizer "sim". Convém, portanto, cuidar dela, segurá-la pelo braço, escoltá-la tal qual aqueles seguranças, afugentar os olhares, os urubus. Mas no carnaval eu curto menos que filosofo, e me chega logo a ideia de que ela não é de ninguém senão dela mesma, e que aqueles urubus todos, embriagados, pessoas cadentes no peso de ser homem macho carnavalesco, não são eu. O ódio me se desprega e tento seguir na paz, até que me paralisa uma imagem: um homem macho carnavalesco, branco, malhado, de cabelo aprumado e abadá bem transado, empurra uma garota, branca, bem maquiada, de pernas torneadas e abadá bem transado, contra uma muro de madeirite; empurra uma, duas vezes, puxa-lhe pelos braços, pelos cabelos, até que um outro homem defere no agressor um mata-leão bem colocado e o derruba no chão, afastando-o da garota assustada, catatônica, em prantos. Observo a cena, quase num ímpeto de também me jogar contra o agressor, a ira me corroendo, até que ouço a voz de alguém próximo: "também, sabe-se lá o que ela fez, né?". Antes que a chuva caia, me pico pra casa; vou andando na rua escura, o sapato apertando os calos, a vida inteira pulsando na ideia. A rua, rio de lama e lixo, o trânsito enfurecido, noite de lobisomem. Em casa, o tapete da porta encardido, a porta fechada; a casa não é minha. A cidade-casa se diverte em torno de ervas daninhas, de vermes hospedeiros, de parasitas virulentos. Uma epidemia de diversionice toma conta das pessoas. A cidade, gargalhando, insanamente elucida: "são eles que pagam as contas!"
Sinto-me oprimido, ponho o rabo entre as pernas, pego o primeiro ônibus e busco um qualquer lugar menos hostil. Casa de mãe é sempre uma boa opção. Chico nina a estrada. Uns versos rasgam artérias de com força:
"Zanza daqui
Zanza pra acolá
Fim de feira, periferia afora
A cidade não mora mais em mim
Francisco, Serafim
Vamos embora."
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